6 de março de 2011

Ilusões

Houve um Mestre que veio à Terra, nascido na terra santa de Indiana, criado nos montes místicos a leste de Forte Wayne.
O Mestre aprendeu sobre este mundo nas escolas públicas de Indiana e, enquanto crescia, em seu ofício de mecânico de automóveis.
Mas o Mestre tinha conhecimentos de outras terras e outras escolas, de outras vidas que vivera. Lembrava-se disso, e, assim sendo, tornou-se sábio e forte, de modo que outros vieram procurá-lo em busca de conselhos.
O Mestre acreditava que tinha o poder de ajudar a si mesmo e toda a humanidade, e, acreditando, assim era para ele, de modo que outros viram o seu poder e o procuraram para se curar de seus problemas e suas doenças.
O Mestre acreditava que é um bem para qualquer homem considerar-se filho de Deus, e, acreditando, assim era. Então as oficinas e garagens em que trabalhava se apinhavam com aqueles que buscavam seu conhecimento e o contato com ele, enquanto as ruas lá fora enchiam-se daqueles que somente ansiavam que a sombra de sua passagem caísse sobre eles, modificando suas vidas.
Resultou que, por causa das multidões, os vários contramestres e chefes da oficina pediram ao Mestre  que largasse as ferramentas e seguisse o seu caminho, pois a aglomeração era tal que nem os outros mecânicos tinham espaço para trabalhar nos automóveis.
E assim foi que ele seguiu para os campos, e as pessoas que o seguiam começaram a chamá-lo de Messias e fazedor de milagres; e, como eles acreditavam, assim era.
Se ocorria uma tempestade enquanto ele falava, nenhuma gota tocava a cabeça de seus ouvintes; o último da multidão ouvia suas palavras tão claramente quanto o primeiro, qualquer fosse a intensidade dos raios ou trovões no  céu.
E sempre lhes falava em parábolas.
E lhes disse: "Dentro de nós repousa o poder de nosso conhecimento para  a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a liberdade e a escravidão. Somos nós que controlamos essas coisas, e não outros."
Um moleiro disse: "Essas palavras são fáceis em tua boca, Mestre, pois és guiado e nós não, e não precisas trabalhar como nós. O homem tem de trabalhar para ganhar a vida neste mundo." O Mestre respondeu: "Uma vez havia uma aldeia de criaturas no fundo do leito de um grande rio cristalino. A corrente do rio passava silenciosamente por cima de todos eles, jovens, velhos, ricos e pobres, bons e maus, a corrente seguindo o seu caminho, só conhecendo o seu próprio ser cristalino. Cada criatura, a seu modo se agarrava fortemente às plantas e pedras do leito do rio, pois agarrar-se era o seu modo de vida, e resistir à corrente era o que cada um tinha aprendido desde que nascera. Mas, por fim, uma das criaturas disse: 'Estou cansado de me agarrar. Embora não possa ver com meus próprios olhos, espero que a corrente  saiba para onde está indo. Vou soltar-me e deixar que ela me leve para onde quiser. Se me agarrar, morrerei de tédio.' As outras criaturas riram e disseram: 'Louco! Se você se soltar, essa corrente que adora o lançará despedaçado sobre as pedras, e terá uma morte mais rápida do que a causada pelo tédio!' Mas ele não lhes deu ouvidos e, respirando fundo, soltou-se e imediatamente foi lançado sobre as pedras e despedaçado pela corrente! Mas, com o tempo,  como ele se recusasse a tornar a agarrar, a corrente o levantou, livrando-o do fundo, e ele não se machucou nem se magoou mais. E as criaturas mais abaixo do rio, para quem ele era um estranho, exclamaram: 'Vejam, um milagre! Uma criatura como nós, e no entanto voa! Vejam, é o Messias que chegou para nos salvar!' E aquele que foi carregado pela corrente disse: 'Não sou mais Messias do que vocês. O rio tem prazer em nos erguer a liberdade, se ousamos soltar. O nosso verdadeiro trabalho é essa viagem, essa aventura.' No entanto, cada vez exclamaram mais 'Salvador!', enquanto se agarravam às pedras; quanto tornaram a olhar, ele já se fora, e então ficaram sozinhos, inventaram lendas sobre um Salvador"
E aconteceu que, ao ver que a multidão cada vez o seguia mais de perto, mais arrebatada do que nunca, quando viu que insistiam para que os curasse sem descanso, e sempre os alimentasse com seus milagres, e aprendesse por eles e vivesse suas vidas, foi sozinho para o topo de um morro e rezou.
E disse em seu íntimo: Ser Infinito Radioso, se for a tua vontade, deixa que esta taça passe de minhas mão, deixa-me por de lado esta tarefa impossível. Não posso viver a vida de de uma outra alma, no entanto dez mil me imploraram a vida. Lamento ter permitido que tudo isso acontecesse. Se for a tua vontade, deixe-me  voltar aos motores e às ferramentas e viver como os outros homens.
E uma voz lhe falou no topo do morro, uma vez que não era de homem nem de mulher, nem forte nem fraca. uma voz infinitamente bondosa, que lhe disse: "Não a minha vontade mas a tua seja feita. Pois o que for a tua vontade será a minha vontade para ti. Segue o teu caminho como os outros homens e sê feliz na terra."
Ouvindo aquilo o Mestre alegrou-se, deu graças e desceu do morro cantarolando, uma cançãozinha de mecânico. E quando e turba o atormentava com seus males, implorando que os curasse, aprendesse por eles, os alimentasse constantemente com sua compreensão e os divertisse sempre com suas maravilhas, ele sorriu para a multidão e disse, amavelmente: "Eu desito."
Por um momento a multidão ficou muda de espanto.
E ele lhes falou: "Se um homem dissesse a Deus que a coisa que mais desejava era auxiliar o mundo sofredor, fosse qual fosse o preço para si, e Deus lhe respondesse o que deveria fazer, o homem deveria cumprir  o que lhe era ordenado?"
"Pois claro, Mestre!", exclamaram. "Devia considerar um prazer sofrer as torturas do próprio inferno, se Deus lhe pedisse!"
"Não importa quais fossem essas torturas, nem a dificuldade da tarefa?"
"Seria uma honra ser enforcado, uma glória ser pregado numa árvore e queimado, se fosse isso que Deus pedisse", disseram eles.
"E o que fariam vocês", perguntou o  Mestre à multidão, "se Deus lhe falasse diretamente, em pessoa e dissesse: 'ORDENO QUE SEJAS FELIZ NO MUNDO ENQUANTO VIVERES.' O que fariam então?"
E a multidão calou-se, não se ouvindo sequer uma voz ou um som sobre os morros e através dos vales.
E o mestre disse em meio ao silêncio: "No caminho de nossa felicidade encontramos o conhecimento para o qual escolhemos esta vida. É assim que aprendi hoje e prefiro deixá-los agora para seguirem o seu caminho como desejarem."
E seguiu o seu caminho no meio da multidão voltando ao mundo cotidiano dos homens e dos motores.

Texto Retirado do Livro "Ilusões" de Richard Bach, Autor de Fernão Capelo Gaivota.





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